E eu não consigo parar. Você não sabe me deter. E eu não consigo parar.

Quem me quiser, tô atendendo aqui a partir de agora: sonetosoitavaserie.blogspot.com -- sem compromisso, a gente orça e depois debate a situação, tenho andado super negociável ultimamente.
Adeus, blog velho! Já deu tudo que tinha que dar, agora a gente vai se levar um pouco menos a sério.
posted by Ismar Tirelli Neto, 10:10 AM
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NOVIDADES DO MUNDO
para Ana Adão
Chega a manhã não chega:
o periódico de minha predileção
a mãe, muito magra, se censura o café fraco;
trejeito o rosto de modo a deixá-la
estar -- quieta, quieta
as palavras que trovejaremos
no próximo enterro.
A porta aberta à contingência dum berro;
atente, telefones de emergência caligrafados
no bloquinho sobre a mesa -- preto,
temos um pressentimento
há densa treva
no claro ingênuo de Janeiro.
posted by Ismar Tirelli Neto, 5:49 PM
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"Nós estamos em plena decadência. Eu e você estamos em plena decadência. A nossa relação está em plena decadência. Quando duas pessoas chegam a se dizer isso tranqüilamente, é sinal de terra à vista."
( Ana Cristina Cesar )
Nosso f-i-l-h-o, nossa meiga contravenção de oito patas e duas cabeças, soando uma fanfarra de alarmas e apitos de UTI -- nós escutando Miles Davis. Deu no que deu.
É pena Descompasso -- nome de batismo -- sucumbir tão cedo. Mas não resta dúvida, a culpa é toda nossa, fracassamos de todas as maneiras possíveis, sem exceção, coisa que pode vir a ser imensa fonte de consolo no futuro ( ter a quem sentar no banco dos réus em pesadelos que se anunciam ). Agarremo-nos a isso. É lucidez, meu bem, unhas e dentes.
O nojo vai passar. Nada de perfumaria. Tomar uma Coca-Cola e esperar o doutor surgir no corredor lívido: entrou em óbito. É lucidez, meu bem, UNHAS E DENTES.
"Leave it alone, it's all gone."
( Harold Pinter )
posted by Ismar Tirelli Neto, 9:04 AM
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CHUVA
Está chorando lá fora ?
posted by Ismar Tirelli Neto, 6:01 AM
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Não,
ainda nunca li Proust
Deleuze
Deleuze lendo Proust
mas já li Camus
e folheei um Cioran certo setembro.
Ele deixa o apartamento na chuva
depois de "Lili Marlene",
eu o beijo mais longo e indevido à moda de grandes melodramas
fantasmagórico, arquetípico
minha mão sentida na aspereza do pulôver, o remanso do coração:
meu bem, sei o quanto te aborrece o uísque a mais
a luz fria, os azulejos
fantasmagóricos, arquetípicos
quem toma o elevador como embarca
um vapor pra longe desses
insensatos, incivilizados
meu bem, sei como é forte o trago
a aspereza desses azulejos, dessa luz gélida
o branco gélido de nosso sonho incomungado
a tristeza do beijo que se porfia, afinal
se evola; o vapor que meu bem embarca para longe
desses insensatos, incivilizados, inevangelizáveis
eus
isso que resta, meu bem,
nunca te contém, mesmo que te faça presente
das mais finas especiarias desse lado do Paraíso:
o quarto-ao-lado-o-sofá-cama pra dormir livre do fedor do meu cigarro
( que você fuma também )
e todo o tempo do mundo pra ler teu Proust em paz
enquanto caço a carteira
que eu não lembro onde enfiei noite passada;
eus que faço tanto gosto em ti
serão todos eles assim tão
inapelavelmente banais ?
responde meu bem responde responde.
posted by Ismar Tirelli Neto, 5:52 AM
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Dezembro, I
Em tocar tem uma encosta; paralém, mar aberto. Questão que é também puro não-ser, insonte-bufo. Porém puro paralém da conversa que travam nossas carnes. Nossas peles que se galanteiam, se suspiram, se palram tempos indescritivelmente longos, se mostram pragas e chagas abertas com ciência e casualidade ( admito: alguma ternura ). Que se acendem cigarros com dedos grudentos. Estendido por tão longe, a vista perde e acusa bruxaria. Feitiço. Misticismo barato. Mas é o que nos arrosta; o interrabang do futuro. Minha empresa corrente: tentar uma dimensão cautelosa desse selvagem. Percebo que o presente me amarga, e do passado nada ouso que não seja loucura.
Ah minha severidade. Perfura de ponta a ponta a paisagem cometida por nossos corpos. Proclama-se estado de calamidade privada. Pícolas demolições e reprojetos, trilhões por segundo, vai levando: vai levando meu peito, vai sirgando meu peito partido gritado fodido mal-pago mar aberto adentro dobrando boas e más esperanças não tenho o que dar salvo presença e vê lá.
Que a verdade é te ver sorrindo, alerta, alegre, jogando com a altura das próprias sobrancelhas. Martelando sua máquina de escrever, Rádio MEC chiando baixo num canto do quarto, funda noite de Botafogo nimbando tua cabeça monumental.
posted by Ismar Tirelli Neto, 2:49 PM
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São pena
sem tê-la;
as palavras, o laço
lúbrico que as ata
folias caligulescas,
por mictórios, becos, saunas
mui sensivelmente escuros d´alma
os berros permutados.
São pesar sem piedade
as palavras
inocências que desembestam ao coreto
uivando linchamento
indecências
acordeiradas em trajes dominicais.
posted by Ismar Tirelli Neto, 3:26 PM
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A Um Cantor:
Claro está que nada feito. Jogaste a tempo, perdeste. Jogaste a nervos, perdeste. ´Gora ´güenta a mão, José, que não lhe presta serviço algum prantear a hora morta. Respira a fundo ( diafragmal, abdominal ), não deixa o período quebrar, faz a canção surgir das costelas. Chegue de dentro; te aporte, te finque, te deixe inundar. Ajuda um conhaque, com raspa de gengibre. O que mais te serenar, visando ao bom abraço do inadequado, do dúbio, do quase. Outra ou uma nota há de rir-se das alturas, e o tom extraviado no dédalo de sons, mas não te inquiete. Chegue de dentro que o caminho vai na metade.
posted by Ismar Tirelli Neto, 1:26 PM
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Mas, e o humour ?
Que é que custa a graça do devindo ? O filão de espectralidade nessa pedra crua de presente; maçanetas que se convulsionam sós na madrugada, vultos santos na sala de estar. Que é que custa a graça do fantasma galgo, Giacométtico, que passa vagindo pela calmaria dessa hora ?
Um branco de dentadura nova, esses lençóis -- qual será o alvejante que se usa no aldilà ?
***
Em represália, dou a cada dor antiga o nome de um comediante.
( Buster Keaton me pegou pelas canelas ontem à noite. )
posted by Ismar Tirelli Neto, 3:54 PM
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Michelangelo,
Pai Angústia
Cá dentro, trepando em andaimes
Tarzan Maneirista
Pintando-me frescos à cúpula do peito.
Il tormento e l´estasi
As boas paixões vão para Deus
As demais, para o Diabo.
Cumpre organizar plebiscito para determinar qual é qual.
Michelangelo,
Padre Angoscia
Em virulento colóquio com um joelho de pedra:
Por que não me falas ?
Mais quantos Michelangelos 2006
Em águas-furtadas safadas
Doidos atrás da hora de dar
Alma a Deus, corpo à terra e bens à parentela mais chegada ?
Mais a agonia da castidade e suas sórdidas assunções,
Saraivadas de mocinhos na Lapa
A solidão de quarenta e oito epigramas fúnebres.
Mai più.
Quem viu as melhores mentes de sua geração destruídas pela loucura, famintas histéricas nuas, osculando a lona sem pudor nenhum, as barbas longas empapadas de fluídos de esgoto ?
Mai più, mai più.
Michelangelo,
Padre Angoscia,
Se não aceito imitações, não me aceito.
posted by Ismar Tirelli Neto, 9:29 PM
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"mlle verlaine
me ama infinito
como amam as crianças
mas não me quer ver
nem pintado
de Londres em 1872"
( Bruna Beber, "Saison En Enfer" )
È arrivata La Beber ! A que se assina B.B. no frontispício deste laminoso "A Fila Sem Fim Dos Demônios Descontentes". Umas Sganzerlescas brilhantes pro povo se esbaldar, marginais até o último fio de erudição. Atentem, "a novíssima literatura" está viva, razoavelmente bem e morando no Rio de Janeiro.
posted by Ismar Tirelli Neto, 2:21 PM
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Vulgo: Envelhecer ( Parte I )
I.
Tempo é burla. Mas de tão magistralmente arquitetada, nem cabe suspeitar.
II.
Como defrontar-se o Céu e ladrar, mão em pala: fraude ! Nem um desaba, nem outro estaca. De tão requintadamente urdidos, nem cabe apontar.
III.
Como dar conta dessa sensorragia ? Ora o céu ruindo, ora o tempo parado, ora o sangue às tontas procurando figurar linguagem. Fraqueza imperdoável, sentir em metáforas. Mas de tão rançosamente entranhadas, nem cabe lamentar.
IV.
Comovido que ando, inda não sei ao certo por quê. Faço-me à vida por cima do muro, nem lá, nem cá, nem nunca. Nem cabe coisa alguma, que dirá questionar.
V.
Tempo é borra. O que se sedimentou nessas panturrilhas tortas de homem nada Vitruviano.
posted by Ismar Tirelli Neto, 2:28 PM
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Para P.
"Ou talvez até mais do que isso: não seria exatamente assim que deveria acontecer, já que foi assim que aconteceu ?".
( do conto "Uma Carta", Sérgio Sant´Anna )
Há tempos por escrever-lhe qualquer coisa.
O porteiro me evita os olhos; estou sóbrio hoje de manhã. Mas o desmazelo dos cabelos, e as sandálias que me andam engraçado; a barba aprofética e o bigode já franjeando o lábio superior. A tanto do mundo eu não tenho instante em terra firme. Parecem que bordejo seus dias, de lidar no mundo com diligência de inseto, pré-destino kármico de abelhas e formigas e cá eu, saboreando cada suspiro feito último, fosse o que fosse, em suma, a afronta do todo outro. Você que dizia que eu bebia demais, fumava demais, era coisa demais; lá eu, o silêncio estrugindo de indignação com tua beatice, lá eu, indignado com a promiscuidade da minha indignação, que na noite imensa e silenciosa, saía a ter furtivamente com a ternura.
Não me atardei Naqueles, que, esses sim, desunidos da terra, me puseram de joelhos e me sagraram completo imbecil. Aqueles que se arrogavam o direito de ser a cegueira dos outros. Pra descarar de vez esse tempo nosso tão breve, poderia dizer que só intentei uns graus a mais nas tuas lentes, clarificar-lhe o ponto de fuga, onde se fundem as partes do todo e o sentido é total.
Vamos botar o desencontro em dia.
Naqueles -- esses sim, os que minaram jarda por jarda o campo que lhe propus atravessar -- não me demorei. Preferi teus braços, teu sono barulhento. Aqueles istmos de tempo em que tua perplexidade sumia; lá você, timbrando resolução furiosa em meu corpo -- lá eu, peticionando as marcas.
Você me reencontra em quatro cheiros diferentes. Cartas resfolegantes, silêncios telefônicos. Tudo muito jovem, desgraçadamente germinal.
Eu te envelheci ?
Os cabelos assim cortados; o cansaço de corredor de Maratona. Pelo menos a última vez foi sem angústia.
O porteiro me evita os olhos; que há neles de tão torto ? Ontem que ele era criança. Cresceu, deu nisso. É crescer que dá nisso. Às filhas pequenas ele dá o exemplo, isso, aquilo, lá, eu, estacando à soleira e medindo a chuva antes de ganhar a avenida e tomar o ônibus -- pra quê ? que é que ele faz ? -- não se sabe -- coisa que ver com cinema, coisa que ver com música, qualquer coisa -- ele é artista ? -- não se sabe -- mas ele estuda ? -- não se sabe -- mas o quê, só sei que era pequeno e agora deu nisso.
Os cabelos desvairados com os quais você brincou; a barba que o outro coçava; o bigode que um outro mais notou amarelecer nas pontas.
Acho que somos gente muito sozinha e é um pecado não estarmos juntos.
Não, eu não acho nada. Vamos botar o desencontro em dia.
De quando em quando um cheiro bravo e doce me assalta na rua e nem pra achar que é você por perto. Não é estranho. É que eu te sei muito remoto, e não entretenho sonhos de te ver no bar fortuito, no passeio fortuito, no fortuito metrô. Não devaneio contigo, basta sentir falta. A espetacularmente humana falta que você me faz. Sem idéia, nem ilusão -- distante uma chamada, um cineminha, o mundo inteiro. É pena, P. E não dá nem pra dizer outra coisa.
posted by Ismar Tirelli Neto, 5:26 PM
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Quero meu canto o desleixo do mundo
O salto no escuro que a vida não deu
Quero minha voz sem pena e sem jeito
Quero meu canto não mais do que eu.
posted by Ismar Tirelli Neto, 4:50 PM
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Cume da rocha; éramos, eu e você, primeiros homens.
não nos existia palavra.
Das ondas baças que bofeteavam a pedra
você arrancava madrigais.
Pânico, feito mineral,
a capa de chuva encharcada,
indaguei-lhe
( por quê, se não nos existia palavra ? )
indaguei-lhe se era homem de fé.
No mar, tantos
subitâneos silêncios
estrondeavam:
as águas que os mortos revoltam.
Meu sentimento de veleiros vencidos.
Pânico,
das mãos que não me tocam
teu encastelamento
tua voracidade, que existir é um dever-ser.
Pois de unhas marquei
nas ilhargas da rocha
rudimentos dum novo idioma:
o medo.
Hão de alfabetizar tua prole:
"o mar é mau".
posted by Ismar Tirelli Neto, 2:14 AM
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