E eu não consigo parar. Você não sabe me deter. E eu não consigo parar.

Para P.
¿Ou talvez até mais do que isso: não seria exatamente assim que deveria acontecer, já que foi assim que aconteceu ?¿.
( do conto ¿Uma Carta¿, Sérgio Sant´Anna )
Há tempos por escrever-lhe qualquer coisa.
O porteiro me evita os olhos; estou sóbrio hoje de manhã. Mas o desmazelo dos cabelos, e as sandálias que me andam engraçado; a barba aprofética e o bigode já franjeando o lábio superior. A tanto do mundo eu não tenho instante em terra firme. Parecem que bordejo seus dias, de lidar no mundo com diligência de inseto, pré-destino kármico de abelhas e formigas e cá eu, saboreando cada suspiro feito último, fosse o que fosse, em suma, a afronta do todo outro. Você que dizia que eu bebia demais, fumava demais, era coisa demais; lá eu, o silêncio estrugindo de indignação com tua beatice, lá eu, indignado com a promiscuidade da minha indignação, que na noite imensa e silenciosa, saía a ter furtivamente com a ternura.
Não me atardei Naqueles, que, esses sim, desunidos da terra, me puseram de joelhos e me sagraram completo imbecil. Aqueles que se arrogavam o direito de ser a cegueira dos outros. Pra descarar de vez esse tempo nosso tão breve, poderia dizer que só intentei uns graus a mais nas tuas lentes, clarificar-lhe o ponto de fuga, onde se fundem as partes do todo e o sentido é total.
Vamos botar o desencontro em dia.
Naqueles -- esses sim, os que minaram jarda por jarda o campo que lhe propus atravessar -- não me demorei. Preferi teus braços, teu sono barulhento. Aqueles istmos de tempo em que tua perplexidade sumia; lá você, timbrando resolução furiosa em meu corpo -- lá eu, peticionando as marcas.
Você me reencontra em quatro cheiros diferentes. Cartas resfolegantes, silêncios telefônicos. Tudo muito jovem, desgraçadamente germinal.
Eu te envelheci ?
Os cabelos assim cortados; o cansaço de corredor de Maratona. Pelo menos a última vez foi sem angústia.
O porteiro me evita os olhos; que há neles de tão torto ? Ontem que ele era criança. Cresceu, deu nisso. É crescer que dá nisso. Às filhas pequenas ele dá o exemplo, isso, aquilo, lá, eu, estacando à soleira e medindo a chuva antes de ganhar a avenida e tomar o ônibus -- pra quê ? que é que ele faz ? -- não se sabe -- coisa que ver com cinema, coisa que ver com música, qualquer coisa -- ele é artista ? -- não se sabe -- mas ele estuda ? -- não se sabe -- mas o quê, só sei que era pequeno e agora deu nisso.
Os cabelos desvairados com os quais você brincou; a barba que o outro coçava; o bigode que um outro mais notou amarelecer nas pontas.
Acho que somos gente muito sozinha e é um pecado não estarmos juntos.
Não, eu não acho nada. Vamos botar o desencontro em dia.
De quando em quando um cheiro bravo e doce me assalta na rua e nem pra achar que é você por perto. Não é estranho. É que eu te sei muito remoto, e não entretenho sonhos de te ver no bar fortuito, no passeio fortuito, no fortuito metrô. Não devaneio contigo, basta sentir falta. A espetacularmente humana falta que você me faz. Sem idéia, nem ilusão -- distante uma chamada, um cineminha, o mundo inteiro. É pena, P. E não dá nem pra dizer outra coisa.
posted by Ismar Tirelli Neto, 5:26 PM
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Quero meu canto o desleixo do mundo
O salto no escuro que a vida não deu
Quero minha voz sem pena e sem jeito
Quero meu canto não mais do que eu.
posted by Ismar Tirelli Neto, 4:50 PM
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Cume da rocha; éramos, eu e você, primeiros homens.
não nos existia palavra.
Das ondas baças que bofeteavam a pedra
você arrancava madrigais.
Pânico, feito mineral,
a capa de chuva encharcada,
indaguei-lhe
( por quê, se não nos existia palavra ? )
indaguei-lhe se era homem de fé.
No mar, tantos
subitâneos silêncios
estrondeavam:
as águas que os mortos revoltam.
Meu sentimento de veleiros vencidos.
Pânico,
das mãos que não me tocam
teu encastelamento
tua voracidade, que existir é um dever-ser.
Pois de unhas marquei
nas ilhargas da rocha
rudimentos dum novo idioma:
o medo.
Hão de alfabetizar tua prole:
"o mar é mau".
posted by Ismar Tirelli Neto, 2:14 AM
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e o mundo dissonante que nós dois tentamos inventar
tentamos inventar tentamos inventar tentamos
a felicidade a felicidade a felicidade a felicidade
Quântico uma porra.
Quede-nos antigos, faça a fineza. Qualquer coisa que anteceda uma metafísica da conexão.
Eu sou sozinho, sozinho, caralho. E desafinado. E não é pouco.
posted by Ismar Tirelli Neto, 7:48 PM
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Angra I:
Enfiando por todas as estradas
Erradas
Confiança cega, brasileira, nos sinais
Placas
Faróis
( Outros medos ).
Estatelo-me na manhã costeira. Se
Um corvo bicou meus olhos ? Se
Um corvo se fartou dos meus miolos ?
Magnificente expansão de mim mesmo; ou leve resfriado que se pretende curado mediante exageros etílicos. Você aprecia minha delicadeza, mas ela não permite que eu exerça minhas funções de co-piloto apropriadamente.
Propriamente sou o sujeito perdido
O tipo desgarrado do dito e do não-dito
Ovelha negra do discurso.
Quando barroco ?
Quando exatidão ?
Estranho em terras sonolentas.
Frio demais para o banho de mar,
Conchego-me à rede
On hold pelo seu pequeno milagre do despertar. Já a luz se nos falha, o vento bate forte e as portas da pousada ameaçam fechar com estrondo.
( vamos lá que esse vento traz
recado de partir )
Esse sursis litorâneo
Que não seja a loucura
Mas --
Que seja o litoral da loucura
Tudo prestes a -- o perigo -- por que não dizer ?
A aventura.
( Nada mais irritante do que alguém que se
abstém de te salvar ).
Vida esquisita.
Em deflagrações de promessas e
Idílios
Ilhas, montanhas e sal.
Distâncias esquadrinhadas com ardor de criança.
( criança criança criança que o sábado não começa sem um OK materno um afago paterno que o sábado se preambula ao infinito mas não mas não mas não se digna começar. )
E NÃO É ESSE O INSTANTE DE VER-SE ÚLTIMO E ESSENCIAL -- MERDA, POR QUE NÃO ESTOU RELENDO CAMUS OU ADMOESTAÇÕES NIETZSCHEANAS CONTRA A LIMITAÇÃO HUMANA ?
( cometendo tolas arquiteturas vocabulares gramaticais
sintáticas
na esperança no intento no PLANO de aliviar-me
da condição
da... condição, essa
a humana, manja ?
é dose. )
Tem valia não.
Melhor seria viver.
Estar aqui em toda fibra do meu ser.
Estar-aqui atômico, nuclear, radioativo, pós-tudo
Estar-aqui-pós-tudo
Estar-aqui-pós-palavrório
Estar-aqui-pós-café-da-manhã
Estar-aqui-pós-eu-te-amo.
( vamos lá que esse vento traz
recado de partir. )
A cada um que me apresenta
Uma nova paisagem
Endivido-me como se renascesse
Como minha morte fosse
O Rio na mesma, que eu não sei ver diferente
Que eu sofro e tento e
Tanto penar --
Amante incomunicável.
Só faz enlanguescer
E torrar
E não se mostra minimamente preocupada em oferecer-me alternativas.
Que anatematizar é quase esporte.
( teu sono, que eu levo na esportiva
esse brinquedo de me deixar a sós com o mar
interpretá-lo
como as confusas placas que pululam
pela Avenida Brasil;
por muito tempo indo
estávamos voltando
Retorno
Santíssimo. )
Retorno NÃO HÁ. De coisa nenhuma.
É perdição por mar, por breve, esse derivar
Quase flanar
Entrelinha-se morte por asfixia.
Corpo d´água
Empedrado
Artefato marítimo, relíquia.
Clássico horror da morte, tão simples e direto que me reconforta. Estranho que um medo me reconforte, mas verdade.
De avô marujo e mãe chorosa.
( E tias chorosas. E avó chorosa. )
Tudo é água e sal. Longo tempo sem confrontar os elementos, dá nisso, talvez a mesma, mas não se nega que meu futuro seja muito mais promissor, e que essa idade limítrofe, litorânea, costeira, sancione tão-só a preocupação de ser autêntico.
Outro, mas autêntico.
( ganas de deixar bilhete no espelho do banheiro
simples
"muda minha vida"
imagem minha em Super 8
silhuetado contra a brancura de TUDO
gritando, correndo pela praia e gritando
muda a minha vida.
pedindo pra Deus confirmar presença
cessar de inexistir, enfim. )
Disto a baía inteira
Do arame farpado
As feridas como que pressentem. Minto, sentem.
Nada mais me interessa
Afora um rapport terno com o que me traspassa
Com todas as letras -- perfura sangra e
Crucifica, como quê.
Mas como Camões em tempos idos de uniformes de cochilos em sala de aula:
Sem dor.
Não muita.
Honey,
Quero adoçar o sangue
Que o coração o sorva forte e quente como a redentora xícara de café
Que a cada hausto comece a vida. Não recomece, comece.
Perdido o ponto de referência.
A cada imagem comecem os olhos
( os barquinhos que margeiam a pousada
sua corrida nua ao mar à noite
o grito ao volante do jipe: "eu te avisei, vai à luta". )
( uma epopéia em louvor da tua cara
guiando o jipe amarelo. )
( a fixidez e a justeza da tua cara
caro
guiando o jipe amarelo:
retorno NÃO HÁ. )
Agora são as palavras te querendo.
Você e seu sono tão leve
Constelado de ditos incompreensíveis,
Praticamente enigmas,
N´importe quoi.
O mar puxando assunto
E o sono leve de existir
Minha vida
Redargüindo em praticamente enigmas,
Eu espectador desse diálogo confuso, desse consórcio desastrado.
( I´m your conscience, darling.
You´d better know that I´m your guide. )
Há pouco deu-se outra vez
De perder o fôlego
De perder o fôlego para o mundo.
Você sonha um deque
Que se abre sobre o espaço infinito.
Isso daqui já me está bem infinito
E trata-se, igualmente, de um deque.
O vento dá conta do movimento,
O mar, do não-limite;
O pensamento jorra ( praticamente enigmas )
E é curioso que de repente eu tenha ficado tão plácido
E que a paixão tenha encontrado essa voz branda;
Isso aqui foi descansar
Retomada de fôlego em palavras,
Posso seguir agora.
Sua estranha percepção do tempo novamente me resgata.
posted by Ismar Tirelli Neto, 2:09 PM
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