E eu não consigo parar. Você não sabe me deter. E eu não consigo parar.

NOVIDADES DO MUNDO
para Ana Adão
Chega a manhã não chega:
o periódico de minha predileção
a mãe, muito magra, se censura o café fraco;
trejeito o rosto de modo a deixá-la
estar -- quieta, quieta
as palavras que trovejaremos
no próximo enterro.
A porta aberta à contingência dum berro;
atente, telefones de emergência caligrafados
no bloquinho sobre a mesa -- preto,
temos um pressentimento
há densa treva
no claro ingênuo de Janeiro.
posted by Ismar Tirelli Neto, 5:49 PM
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"Nós estamos em plena decadência. Eu e você estamos em plena decadência. A nossa relação está em plena decadência. Quando duas pessoas chegam a se dizer isso tranqüilamente, é sinal de terra à vista."
( Ana Cristina Cesar )
Nosso f-i-l-h-o, nossa meiga contravenção de oito patas e duas cabeças, soando uma fanfarra de alarmas e apitos de UTI -- nós escutando Miles Davis. Deu no que deu.
É pena Descompasso -- nome de batismo -- sucumbir tão cedo. Mas não resta dúvida, a culpa é toda nossa, fracassamos de todas as maneiras possíveis, sem exceção, coisa que pode vir a ser imensa fonte de consolo no futuro ( ter a quem sentar no banco dos réus em pesadelos que se anunciam ). Agarremo-nos a isso. É lucidez, meu bem, unhas e dentes.
O nojo vai passar. Nada de perfumaria. Tomar uma Coca-Cola e esperar o doutor surgir no corredor lívido: entrou em óbito. É lucidez, meu bem, UNHAS E DENTES.
"Leave it alone, it's all gone."
( Harold Pinter )
posted by Ismar Tirelli Neto, 9:04 AM
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CHUVA
Está chorando lá fora ?
posted by Ismar Tirelli Neto, 6:01 AM
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Não,
ainda nunca li Proust
Deleuze
Deleuze lendo Proust
mas já li Camus
e folheei um Cioran certo setembro.
Ele deixa o apartamento na chuva
depois de "Lili Marlene",
eu o beijo mais longo e indevido à moda de grandes melodramas
fantasmagórico, arquetípico
minha mão sentida na aspereza do pulôver, o remanso do coração:
meu bem, sei o quanto te aborrece o uísque a mais
a luz fria, os azulejos
fantasmagóricos, arquetípicos
quem toma o elevador como embarca
um vapor pra longe desses
insensatos, incivilizados
meu bem, sei como é forte o trago
a aspereza desses azulejos, dessa luz gélida
o branco gélido de nosso sonho incomungado
a tristeza do beijo que se porfia, afinal
se evola; o vapor que meu bem embarca para longe
desses insensatos, incivilizados, inevangelizáveis
eus
isso que resta, meu bem,
nunca te contém, mesmo que te faça presente
das mais finas especiarias desse lado do Paraíso:
o quarto-ao-lado-o-sofá-cama pra dormir livre do fedor do meu cigarro
( que você fuma também )
e todo o tempo do mundo pra ler teu Proust em paz
enquanto caço a carteira
que eu não lembro onde enfiei noite passada;
eus que faço tanto gosto em ti
serão todos eles assim tão
inapelavelmente banais ?
responde meu bem responde responde.
posted by Ismar Tirelli Neto, 5:52 AM
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